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Analfabeto até os 18 anos, pedreiro é o responsável por fundar a Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, em Vila da Penha
Com 55 mil livros, o espaço, projetado por Oscar Niemeyer, é mantido sem qualquer apoio, na base da teimosia nordestina

 

RIO – Chovia fininho na Vila da Penha quando o pedreiro Evando dos Santos varria, na calçada da Rua Maestro Henrique Vogeler, o lixo daquela tarde. Encardindo de suor e poeira a camisa cinza amarrotada, ele vestia bermudas surradas, chinelos de dedo e preocupava-se em não deixar cair as três canetas Bic que mantinha junto ao peito. Faxinava, com afinco de quem lustra os portões de um castelo, a entrada da Biblioteca Comunitária Tobias Barreto, da qual é fundador.

— Um povo rico é um povo que pensa. Não importa o ofício. Nada impede que um varredor fale grego, leia alemão, conheça poesia… Aprender a pensar também está ligado a executar bem a sua tarefa. Não é demérito nenhum — profere Evando em tom de seminarista, atropelando a própria fala com uma citação: — “Em torno de uma cabeça opaca, dificilmente se esconde um espírito luminoso” (Tobias Barreto).

Enquanto caminha pelos três andares de sua biblioteca, cujo projeto, de 2008, é assinado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, Evando não para de falar. Aos 53 anos, dispara pensamentos, responde as próprias perguntas e tem o costume de arrematar cada opinião com o que chama de “frase filosófica ou poética”. Entre seus autores favoritos, o poeta e jurista sergipano Tobias Barreto, seu conterrâneo; o pensador chinês Confúcio (“cabra arretado demais”); o escritor alemão Goethe; Castro Alves, “a voz dos escravos”; e Machado de Assis (“existe algum escritor brasileiro mais importante que ele? Não existe”).

Eram 14h quando duas meninas tocaram a campainha do lugar. Evando disparou ligeiro. Acompanhadas pelo pai, as crianças ouviram com atenção o animado bibliotecário, que se põe a palestrar:

— Ler é comer. O que você tomou de café da manhã hoje? Pão? Então você comeu três letras. Ler é se alimentar! Podem pegar o livro que quiserem. Se eu fosse seu pai, obrigava vocês a lerem um livro por dia. Criança não trabalha, não paga conta, só come e dorme. Tem tempo de sobra!

Evando fala rápido, declama poemas rápido, cita frases rápido, como que para recuperar o tempo perdido de 18 anos no escuro porão do analfabetismo. Sergipano de Aquidabã e filho de mãe solteira (“meu registro é assim: ‘filho sem pai’”), Evando veio para o Rio depois de os quatro irmãos mais velhos já terem se debandado do Nordeste. Ainda no Sergipe, chegou a frequentar uma “escola da roça”, que logo abandonou por conta da dificuldade em aprender a ler. Apaixonado por histórias desde menino, Evando descobriu um jeito de absorvê-las sem ter que pedir aos irmãos mais velhos que lessem para ele: ia à feira local, se aboletava num dos caixotes e, para seu deleite, punha-se a ouvir os autores de cordel durante a tarde toda.

— Era fantástico! Eu me apaixonei pelo livro antes de ler. É um troço inexplicável esse — espanta-se.

Aos 15 anos, pegou o ônibus em direção à promessa de futuro numa adolescência ainda iletrada. Entre ele e o mundo, um abismo. Em terras cariocas, começou a contribuir para a renda familiar como ajudante de pedreiro. Três anos depois, conseguiu emprego na gráfica da Manchete para fazer parte da equipe que realizava uma grande reforma no espaço.

Tijolo após tijolo, sentiu falta do cordel e de suas histórias mirabolantes. O trabalho braçal havia cimentado, com grossa argamassa, a fantasia. Tomou coragem e foi a uma biblioteca fuçar livros, tentar entender o que eles diziam. A incursão, no entanto, fracassou quando Evando foi obrigado a confrontar-se com sua maior dificuldade: era necessário assinar o nome na ficha cadastral.

— Não pude entrar. Voltei para casa pensando e pela primeira vez surgiu na minha cabeça a ideia de criar uma biblioteca sem essas frescuras. Uma biblioteca próxima do povo, que busca o público e não o afasta.

Determinado a dominar a escrita, pediu ao pastor da Igreja Batista que frequentava, no bairro de Vista Alegre, aulas de alfabetização. Ele lhe aconselhou a poesia (“é mais livre, mais fácil e igualmente profunda”). Doutrinado por um religioso, os primeiros versos que leu sozinho foram, naturalmente, bíblicos: “O Senhor é meu pastor e nada me faltará”. Evando tinha 18 anos e pôde, pela primeira vez, ler a “Fatos e fotos”.

A ideia da biblioteca não lhe saiu da cabeça e, numa tarde de 17 de julho de 1998, ele e a mulher, Maria José, depararam-se com duas coleções de livros inteiras jogadas numa calçada do Centro do Rio: “História do Brasil Pedro Calmon”, com sete volumes; e “Os titãs”, com dez volumes. Evando diz que carregou as 17 obras nas costas até a Penha (“era um tesouro!”). A partir daí, começou a reunir livros na sala de sua casa. A doação e os livros garimpados em sebo foram se avolumando, tomando conta também da garagem, dos quartos… Soterrada por 55 mil títulos, a casa precisava ser desafogada.

Foi assistir a uma entrevista de Oscar Niemeyer na TV para ter o lampejo. Com a determinação de quem ergue um muro em um dia, Evando entrou em contato com o escritório do arquiteto, contou sua saga quixotesca e clamou por um projeto. Dois anos mais tarde, em 2008, Niemeyer entregava o desenho ao pedreiro. Munido de um certificado do Ministério da Cultura que permitia que captasse recursos para construir a sede da biblioteca, bateu na porta do BNDES, conseguiu R$ 651 mil de financiamento e o espaço abriu as portas.

Na época, ficou famoso no bairro, deu entrevistas, foi ao Programa do Jô. Não à toa, enaltece a importância do jornalismo, sabe falar para a câmera e sugere ideias de pautas. Evando pulsa. Senhor de seu espaço, mostra orgulhoso o reino em que, tal qual sua cabeça, transbordam palavras. São centenas de cartazes com frases de grandes poetas e pensadores colados nas paredes, estantes divididas em categorias, além de engenhocas para apurar o gosto literário, como uma cesta recheada de balas com uma frase grampeada em cada uma.

— Já comeu a sua frase hoje? — pergunta, a entonação de um radialista, para em seguida mudar de tom: — Não é o máximo? É a única biblioteca do país que tem uma coisa dessas.

Evando leva ao pé da letra a filosofia de levar a biblioteca ao público. Uma vez por semana, veste-se de “homem livro”, um traje feito de papelão e frases, muitas frases, muito semelhante a um parangolé de Hélio Oiticica. Nele, cola dizeres de sua própria autoria, com as iniciais “E.S.” ao final. São frases como “Os livros e as mulheres são as delícias do homem”, “A leitura é um delírio sem loucura” ou ainda “A leitura é a terapia contra a depressão”.

Um frasista de smoking na ABL

Sem qualquer tipo de patrocínio ou ajuda de custo do governo para a manutenção da biblioteca, Evando mantém sozinho e com dificuldade, há cinco anos, o espaço. Quem antes financiava o lugar era sua falecida mãe. Viúva de um ex-combatente, ela recebia uma pensão de R$ 12 mil, enterrada junto com ela. Como não tem dinheiro para pagar um funcionário para tomar conta da biblioteca, é Evando quem cuida do lugar e não tem, consequentemente, tempo para trabalhar como pedreiro. Sem renda, ele sustenta o projeto com parte da aposentadoria da mulher, Maria José: R$ 1200, usados também para pagar as contas da casa e os gastos pessoais do casal. Evando não tem filhos.

— Eu nunca me preocupei em juntar dinheiro. Gastei tudo nos meus projetos aqui da biblioteca — diz, gargalhando. — Não me arrependo de nada.

Dá para entender. Ali dentro, o pedreiro dá lugar a outros Evandos. No interior do mundo que inventou para si, Evando é Sancho Pança, senhor de engenho, psiquiatra respeitado, escravo africano, americano desenvolvido, europeu sofisticado, poeta de renome e rei do seu condado.

A esperança é uma quitinete que Evando construiu ao lado da casa deles, há poucos metros da biblioteca, que pretende alugar por R$ 400.

— Minhas aventuras são muitas, eu não paro de inventar coisa pra fazer! A calçada da fama foi assim.

Há um ano, Evando resolveu declarar seu amor aos cânones da literatura. Inspirado na calçada de Hollywood, fez a versão tupiniquim no Largo do Bicão, também na Penha. Os primeiros homenageados foram ídolos do cinema, algo que Evando considera a santíssima trindade das telas: Charles Chaplin, Sidney Poitier e Sharon Stone. Astros que ele conheceu no escuro do Poeirinha, apelido do extinto Cine Cachambi. Ao todo, são 233 plaquinhas.

Devoto do conhecimento, o sergipano nutre adoração pela Academia Brasileira de Letras. Contabiliza no currículo três cafezinhos que já tomou nos salões da ABL (“aquilo lá é um luxo só, não pode ficar de bestagem, toda matuta, tem que aproveitar”), além de duas cerimônias de posse, cujos convites ele quase declinara por conta da obrigatoriedade do smoking.

— Achei aquela coisa muito burguesa, mas aí quando pagaram o aluguel (do traje) para mim eu fui! E vou falar: “a primeira coisa que eu quero fazer quando tiver dinheiro é comprar um smoking!” É muito bonito. Eu acho que foi isso que aconteceu com o Lula. O homem não quis mais saber da ralé! Eu entendo. A gente se sente muito poderoso naquilo ali. Imagina já tendo poder?

Entre os 55 mil títulos que reúne, exibe algumas raridades, como uma versão de “Mil e uma noites” de 1888 em alemão gótico, livro que Evando acaricia com cuidado.

— Livro a gente tem que pegar, abrir, cheirar e, só depois, ler. Livro é sentido.

Diante de tanta sabedoria e, sobretudo, vontade de transmiti-la, natural perguntar se ele nunca pensou em dar aulas ou palestras.

— Que isso, menina! Eu sou pedreiro.

 

Publicado originalmente por Catharina Wrede no O Globo

Evando dos Santos: ‘O que a gente não inventa não existe’
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