Compartilhe!
Share on Facebook18Share on Google+1Tweet about this on Twitter0Share on LinkedIn0Pin on Pinterest0

A Islândia está vivendo um boom literário. Esta ilha com um pouco mais de 300 mil habitantes tem mais escritores, mais livros publicados e mais livros lidos per capita do que qualquer outro lugar do mundo.

É difícil evitar o contato com escritores na capital Reykjavik. Há uma frase em islandês que diz, “ad ganga med bok I maganum”, todo mundo dá origem a um livro. Literalmente, todo mundo “tem um livro em seu estômago”. Um em cada dez islandeses irá publicar um livro.

“A competição é grande?”, pergunto à jovem romancista Kristin Eirikskdottir.

“Sim. Especialmente porque eu moro com a minha mãe e o meu parceiro, que também são escritores em tempo integral. Mas tentamos publicar em anos alternados para não competirmos muito.”

 

Histórias por toda parte

Datadas do século 13, as sagas islandesas contam histórias de colonos nórdicos que começaram a chegar à ilha no final do século 9. Sagas são escritas em guardanapos e copos de café. Cada gêiser e cachoeira que visitamos serviu de inspiração para um conto de antigos heróis e heroínas. Nosso guia se levanta no meio do passeio para recitar uma poesia de autoria própria. O pai e o avô do nosso motorista de táxi escrevem biografias. Bancos de rua têm códigos de barras que permitem escutar uma história em no smartfone enquanto estiver sentado. Estamos na época do festival literário, e Reykjavik está repleta de escritores.

A vencedora do Prêmio Man Booker, a indiana Kiran Desai, e o autor de Geração X, o canadense Douglas Coupland, estão lado a lado com as estrelas literárias islandesas Gerdur Kristny e Sjon.

Sjon também escreve letras de música para Bjork, a famosa cantora e compositora islandesa.

 

Romance policial

“Escritores são respeitados aqui”, Agla Magnusdottir me diz. “Eles vivem bem. Alguns até recebem um salário.”

Feira de livros em Reykjavík, Islândia

Magnusdottir é responsável pelo novo Centro de Literatura da Islândia, que oferece apoio estatal para a literatura e sua tradução. “Eles escrevem tudo – sagas modernas, poesias, livros infantis, literatura e ficção erótica – mas o gênero que mais cresce é o romance policial”, diz ela. Essa, talvez, não seja nenhuma surpresa neste país nórdico. Mas a venda de romances policiais é impressionante – o dobro do que em qualquer um de seus vizinhos nórdicos.

 

Então, o que levou a esse boom literário?

Eu diria que é devido a uma safra de excelentes escritores, que escrevem contos fascinantes, com personagens fantásticos. Os leitos de rios formados por lava negra, gêiseres, terras que borbulham, vulcões, e rios que lembram contos de fadas também tornam o cenário da Islândia perfeito para histórias.

Não é à toa que o britânico J.R.R. Tolkien, autor de Senhor dos Anéis, e o poeta irlandês Seamus Heaney se encantaram pelo país, e a Unesco designou Reykjavik como a Cidade da Literatura em 2011.

 

Nação de contadores de histórias

Solvi Bjorn Siggurdsson, um romancista islandês, diz que os escritores devem muito ao passado. “Nós somos uma nação de contadores de histórias. Quando estava escuro e frio, não tínhamos mais nada para fazer”, diz ele. “Graças aos Eddas poéticos (coleção de poemas em nórdico antigo) e sagas medievais, fomos sempre cercados por histórias. Após a independência da Dinamarca, em 1944, a literatura ajudou a definir nossa identidade.”

Siggurdsson presta homenagem ao islandês ganhador do Nobel de Literatura, Halldór Laxness, cujos livros são vendidos em postos de gasolina e centros turísticos de toda a ilha.

Moradores dão o nome de Laxness a seus gatos, e fazem peregrinações a sua casa.

“Quando Laxness ganhou o prêmio Nobel em 1955, ele colocou a literatura islandesa moderna no mapa”, Solvi me diz. “Ele nos deu confiança para escrever.”

A nuvem de cinzas de um dos muitos vulcões ativos da Islândia que causou caos aéreo em 2010, e a crise financeira – ou “kreppa” – que ajudou a desencadear a crise econômica mundial de 2008, também colocaram a Islândia no mapa.

Hallgrimur Helgason – comediante, pintor e escritor – me diz que o kreppa trouxe os islandeses de volta à realidade.

“A crise nos tornou menos complacentes e deu incentivo criativo aos artistas – como Thatcher fez na Grã-Bretanha”, ele sorri. “Abordamos política também, não é tudo sobre sagas”.

 

Crise literária

Mas alguns temem um kreppa literário. A Islândia tem tantos escritores que há enorme pressão sobre os editores. Nesta época do ano acontece o que os islandeses chamam de “jolabokaflod”, quando a maioria dos livros são publicados pensando nas vendas de Natal. Cada família recebe um catálogo de livros. Todos ganham livros de presente de Natal – de capa dura e devidamente embalado.

“Mesmo agora, quando vou ao cabeleireiro, as mulheres não querem que eu conte fofocas de celebridades, mas recomendações de livros para o Natal”, diz Kristin Vidarsdottir, gerente do projeto da Unesco Cidade da Literatura.

Mas é uma mecha de cabelo azul, que chama a minha atenção para a presença da celebridade mais famosa da Islândia. A cantora Bjork está presente em vários dos eventos do festival. “É ótimo ver você apoiar escritores”, eu digo à ela. “É um lugar pequeno. Nós crescemos juntos”, ela responde. “Nós apoiamos um ao outro.” Se a Bjork já foi algum dia a maior marca cultural da Islândia, ela é hoje acompanhada por uma enchente de autores.

 

Publicado originalmente por Rosie Goldsmith na BBC Brasil

Dê seu voto
Compartilhe!
Share on Facebook18Share on Google+1Tweet about this on Twitter0Share on LinkedIn0Pin on Pinterest0
eBook grátis Como transformar ideias em livros de sucesso