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Veio de uma estátua viva — uma dessas pessoas que, pintadas de branco ou prata, pedem na rua, imóveis — a resposta mais ágil ao impasse da “indústria criativa” sem produtos. Em outras palavras: como um músico se sustenta quando seu público já não compra música no formato comercializável, como um CD? E como o mercado se sustenta quando seu motor, a gravadora, já não consegue transformar a música em mercadoria, vendê-la, promovê-la?

Amanda Palmer pintava-se de branco, subia em um caixote e fingia-se de estátua, esperando que alguém lhe jogasse algumas moedas. Para quem pingasse na sua cuia, dava em troca apenas um olhar agradecido. Como renda, era o melhor que arrancava de seu diploma de belas artes, já que sua ocupação principal, uma banda de “Punk Cabaret”, batalhava heroica nos circuitos amadores. Com a grana curta, a banda dependia de amigos que emprestassem equipamentos, descolassem locais para se apresentar — e que fossem assisti-los. Uma amizade puxava a outra, e, depois de algum tempo, a banda já tinha um público cativo e entusiasmado, grande o suficiente para atrair uma gravadora, e das maiores.

Parecia o começo de uma carreira de sucesso, mas foi o começo do fim. Depois de um mês em turnê, a gravadora veio dizer que 25 mil CDs tinham sido vendidos. E que isso era um fracasso. E que ela agora estava entregue à própria sorte.

Bom para Amanda, porque ela fez o que sabia fazer, o que aprendeu na rua. Comunicar-se com seu público. O Twitter era o novo caixote na calçada, e o Crowdfunding era a nova cuia. Ela falou à imensa rede — de fãs, colaboradores, de gente que lhe emprestou o sofá para dormir ao longo da turnê. Jogou-se na multidão, como faz nos shows, e pediu para que ela a amparasse. Para fazer o novo disco e bancar uma turnê, pediu uns 100 mil dólares. Recebeu quase 1,2 milhões de dólares. Se 25 mil CDs vendidos não eram suficientes para a gravadora, 25 mil fãs pingando na sua cuia digital conseguiram uma receita assombrosa. “Amanda, a indústria está em ruínas! Como é que você conseguiu fazer com que as pessoas te dessem dinheiro para música?”, perguntaram. “Eu não fiz elas me darem dinheiro. Eupedi que elas me dessem”.

“Por muito tempo, os criadores fizeram parte da comunidade. Conectando. Abrindo portas. Não eram estrelas inalcançáveis. Celebridade significa multidões amando uma pessoa, à distância. A internet, e o conteúdo que podemos transmitir por ela, de graça, está nos trazendo de volta. [Apesar do alcance infinitamente maior, a internet] Significa poucas pessoas nos amando, bem de perto. E essas pessoas serem o suficiente.”

O que isso tem a ver com livros? Podemos responder com um genérico (mas correto) “tudo”. Ou podemos ilustrar com um escritor. Um que seja bestseller do New York Times.

Neil Gaiman enfrentou uma plateia de editores na recente Digital Minds, em Londres, dividindo-os entre tubarões e dentes-de-leão. No primeiro caso, os editores serão os profissionais de sempre, fazendo o trabalho da mesma maneira, e sobrevivendo enquanto tudo ao redor evolui, e seus colegas dinossauros fenecem. Se tiverem sorte.

“A indústria editorial existe para criar um monte de coisas que são exatamente as mesmas. O copyright é o direito de fazer cópias. O desafio que estamos encarando agora é o da mudança. Na maior parte da história da humanidade, a questão que surgia com os livros era a de como obtê-los, eles eram objetos escassos. A informação era escassa, os objetos físicos eram escassos, tudo era escasso. O segredo agora é encontrar o sinal em meio ao ruído, é conseguir ser ouvido. Um mundo no qual qualquer um pode publicar qualquer coisa, de excesso de informações, é um mundo no qual já não confiamos em guardiões de portas [os editores] tanto quanto no passado. Nós confiamos no boca a boca, e na sorte, e em nos transformarmos em dentes-de-leão.”

Por dente-de-leão entenda-se: espalhar milhares de sementes pelo ar, perdendo quase todas, para que algumas sobrevivam e gerem um novo mundo. Metáforas à parte, um escritor (e um empreendedor editorial digital) deve espalhar sua obra pela internet, recorrendo mesmo à pirataria, ao “pague quanto acha que vale”, ao crowdfunding, aos novos formatos. O importante é o conteúdo. E o contato com os leitores. “Não descobrimos as pessoas que amamos (ou os autores que amamos) comprando-as. Primeiro nós as encontramos e só depois é que descobrimos que as amamos. Por isso decidi desde cedo que não iria entrar em uma guerra [contra a pirataria]. Prefiro incentivar, apostar no boca a boca.” O verdadeiro autor não quer ser livro, quer ser lido.

muito lido autor de Sandman não enxerga na tecnologia nenhum bicho papão. “As pessoas me perguntam quais são as minhas previsões para o mercado editorial, e de que modo a era digital está mudando as coisas, e eu digo para elas minha única previsão real, que é: tudo ainda está mudando. Eu não sei como será publicar dentro de cinco anos. Qualquer um que diga que sabe provavelmente estará mentindo. Eu não sei, e ninguém mais sabe. O modelo é: tente de tudo. Erre. Surpreenda-se. Tente outra coisa. Fracasse. Fracasse melhor. Tenha sucesso de modos que jamais teríamos imaginado há um ano, ou há uma semana.”

Não se sabe qual semente de dente-de-leão, entre as milhares soltas pelo vento, vai germinar. Não se sabe o que será dos músicos e escritores, ou o que será do livro. Mas sabe-se que haverá conexões insuspeitas. E surpreendentes. Assisti a palestra TED de Amanda Palmer (de março) pouco depois de vera de Neil Gaiman em Londres (de abril), por puro acaso. Foram tantas as conexões entre as ideias de cada um que me senti compelido a escrever sobre eles. No fim, durante a revisão, uma semente de dente-de-leão voou da Wikipedia: Neil Gaiman e Amanda Palmer são, desde 2011, marido e mulher.

 

Fonte: Julio Silveira

 

 

 

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