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A gaveta sempre foi uma grande aliada da literatura. Escrito, um texto passava necessariamente por uma quarentena, para ganhar aquele tempero que só o tempo concede às coisas feitas para durar. Muitos não resistiam a uma leitura posterior e eram descartados. A maioria acabava submetida a uma revisão criteriosa ou a uma reescrita total. A gaveta assim produzia um efeito profilático na produção literária.

Sua grande auxiliar era a máquina de escrever. Depois de uma escrita lenta, fazia-se necessário passar tudo a limpo, e mexidas mais profundas nos originais impunham nova datilografia. A cada cópia, feita muitas vezes por datilógrafos profissionais, o livro ia se ajustando, modificando-se, ganhando mais musculatura de linguagem. Se esse processo por si só não garantia a qualidade literária, havia ao menos um senso maior de acabamento.

Facilidades tecnológicas e uma percepção mais imediatista da criação literária modificaram completamente os meios de produção de literatura. Ainda em meados dos anos 80, o grande debate era sobre o inocente uso do computador. Puristas de todos os credos defendiam que a escrita eletrônica tirava o peso da palavra, tornando-a algo muito volúvel, facilmente cambiável e, por isso, inadequada como prova material. O símbolo da adesão, no Brasil, a essa nova temporalidade talvez seja o baiano João Ubaldo Ribeiro, que traduziu para o inglês o seu romanção “Viva o Povo Brasileiro!” (1984), usando pela primeira vez (e desde então sempre) o computador. Aos poucos, a escrita digital se fez uma constante entre os ficcionistas, embora alguns ainda escrevessem tudo à mão para só depois passar para os arquivos.

Nos Estados Unidos, e antes do advento dos computadores pessoais, Jack Kerouac foi o responsável pela grande revolução na forma de escrever. Para produzir o seu “On the Road” (1957), colocou um rolo de papel contínuo na máquina, dando à datilografia um fluxo ininterrupto. Ele não queria perder tempo ao trocar a folha. Estava, sem querer, inaugurando a escrita em computador, no qual a tela tem a extensão contínua dos formulários, com a vantagem adicional de ser infinita.

A urgência toma de assalto a literatura. Uma velocidade na produção determina a velocidade da leitura, transpondo para o estilo uma percepção outra de tempo. As máquinas de escrever foram banidas para o museu e para os depósitos de quinquilharias e as gavetas assassinadas – do ponto de vista da criação literária -, dando lugar aos arquivos eletrônicos. Com isso, todo um ramo do pensamento sofreu uma brutal obsolescência. Não há mais lugar para a crítica genética, pois o conceito de original eletrônico tornou inviáveis estudos de modificações, uma vez que essas são apagadas imediatamente.

A geração que estreia hoje na literatura não reconhece a experiência da maturação do texto. Assim que é escrita (seja um poema, um conto, uma crônica, o capítulo de um romance etc.), a obra vai diretamente para os nichos digitais. A distância entre a escrita e a publicação se desfez, e essas atividades acontecem de forma concomitante em blogs, nos quais se escreve on-line, interagindo com um discurso contínuo (último descendente dos formulários usados por Kerouac) e coletivo.

O que se experimenta nas redes sociais, nos seus infinitos tentáculos, é algo que poderíamos definir como literatura instantânea. Produzida e consumida num agora nunca antes tão urgente, a literatura nasce e fenece ao mesmo tempo. Uma postagem no Twitter é atropelada por outra no ato da sua escrita, e a fila cronológica das produções anda numa espécie de velocidade da luz. Os formulários de que nos valemos nesse espaço digital sofrem tal aceleração que pouco permanece para ser retomado. Somos empurrados para a frente, vivendo na verdade um presente sem fim, versão tecnológica do velho sonho de eternidade. Somos eternos, nesse território, porque só temos o precário presente, que nos é roubado e logo devolvido numa mecânica sem fim. A internet funciona, assim, como um rio corrente, que nos obriga a inscrever nele alguns signos passageiros, que aumentam as suas águas e se perdem nelas.

Em espaços menos velozes do que o Twitter, como os sites e blogs, o texto recentemente produzido e imediatamente publicado recebe uma atenção um pouco maior. Estão lá de forma mais disponível para os leitores e para os autores. Assim que publica algo na rede, o escritor mais profissional passa a modificar o texto. Dessas modificações não restam vestígios, pois o texto vai se alterando num jogo de escrita e apagamento. A não ser que o internauta grave os textos logo após a leitura, esses vão sendo rearranjados, assumindo um corpo outro, como num processo de operação plástica, em que a pessoa, radical ou lentamente, se redesenha por meio de cirurgias. O que fica indicado como postagem de um dia do passado sofre interferências posteriores. Pertence em verdade a um momento mais recente, mas continua remetendo o leitor àquele tempo pré-histórico. (Nota: todo passado para os habitantes da internet é um tempo pré-histórico.)

Se há uma trajetória textual omitida numa postagem on-line, o processo traz uma possibilidade nova de fruição. Vemos o escritor gerando a própria obra. Escrever também se rendeu à lógica do making of. Acompanhamos passo a passo a construção do texto, a sua revisão, o diálogo com os leitores. (Em boa medida, um romance escrito na rede aperfeiçoa o processo colaborativo próprio das telenovelas e seriados, que levam em conta a aprovação ou reprovação do público.)

O leitor passa a frequentar o blog do escritor com uma intimidade própria de velhos amigos. Conversa com ele, olha fotos, acompanha a rotina ao mesmo tempo em que vai lendo os originais maleáveis, que crescem de forma fragmentária e tumultuada.

A escrita se faz assim um museu on-line, no qual se mitifica ou se desmitifica, permitindo que os leitores leiam não só o texto, mas a sua produção, com todo o material humano heteróclito que o alimenta. Embora ainda pouco comum, os originais on-line de romances podem ser uma forma de publicação totalmente focada no escritor, que dispensaria os equipamentos editoriais – as editoras, livrarias etc. – e os suportes tradicionais. Todos seríamos aeroamigos dos grandes escritores do presente, em cuja sala passaríamos alguns instantes.

Imagino, por exemplo, Paulo Coelho – uma das personalidades literárias mais conectadas às redes sociais – escrevendo um folhetim na internet, com um capítulo a cada semana. Esse livro poderia continuar infinitamente, até a morte do escritor, e se confundiria com a sua vida. Cada escritor teria, num sistema assim, um único livro, um livro em formulário contínuo, e não haveria mais distância entre escrever e viver.

Os livros impressos, esses seriam destinados apenas às obras dos escritores de ontem, habitantes de um país remoto.
Fonte: Miguel Sanches Neto | Valor Econômico

Miguel Sanches Neto é ficcionista, autor, entre outros, de “Chove Sobre Minha Infância”, “Um Amor Anarquista” e “A Primeira Mulher”

 

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