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Diferente do mercado americano, em que agentes e autores se envolvem de forma mais ativa em adaptações literárias para cinema e TV, esse tipo de projeto ainda engatinha no Brasil — e, quando se concretiza, costuma ser por iniciativa de produtoras ou diretores. Agora, esse cenário dá sinais de que pode mudar. Aqui e ali, projetos começam a surgir para fomentar a transposição de livros de ficção e não ficção para as telas.

Um dos principais personagens nesse front é a agente literária Lucia Riff. Há pouco mais de um ano, ela inaugurou, em parceria com a distribuidora Ana Luiza Beraba, um braço audiovisual da Agência Riff, a maior do país. O nome desse braço é Film2B e tem o objetivo de ser não apenas uma agência de venda de direitos, mas também um núcleo de projetos — propondo séries de TV, documentários e filmes para produtores do país.

— Meu encontro com a Ana foi amor à primeira vista, porque esse era um velho sonho meu. Eu já estava sendo muito procurada por produtoras, mas sempre senti que precisava ser mais ativa. Quis inverter o jogo — diz Lucia Riff. — Com livros, o trabalho do agente literário já é ativo. Senti que faltava fazer o mesmo com as adaptações para cinema e televisão.

A aproximação entre as duas começou em 2011. Antes, portanto, de a nova lei da TV paga ser aprovada, no fim de 2012. Com a legislação, os canais a cabo passaram a ser obrigados a cumprir cotas de programação nacional, o que fez com que a demanda por esse tipo de conteúdo desse um salto — e, com ela, cresceu também a verba disponível pelo Fundo Setorial do Audiovisual. Nesse cenário, os livros despontam como um repositório de ideias originais para atender ao novo ritmo de produção.

Com esse estímulo no mercado, entraram na Film2B Eduardo Senna, advogado, como sócio, e Raquel Leiko, como produtora executiva. Neste ano, a empresa ganhou gás com a reformulação do modelo de negócios. O desafio é, aos poucos, criar parâmetros contratuais para tratar de temas como a remuneração do autor e o período de vigência, para ficar em dois exemplos.

— Uma coisa é o modelo clássico do agenciamento literário, de oferecer o autor para editoras. Mas a Film2B é um núcleo de projetos — afirma Ana. — Vamos fazer um mapeamento de todos os livros da Lucia. Nem sempre o texto de orelha e da contracapa servem para vender um projeto audiovisual.

A Agência Riff tem 1,2 mil livros e cerca de 70 autores. Mesmo sem esse trabalho concluído, a Film2B já emplaca projetos. A série “Amor Verissimo”, por exemplo, do GNT, foi negociada via Film2B.

— Especialmente na TV, a demanda por conteúdo é maior do que a disponibilidade de textos originais. Você recorre a um livro e resolve seu problema — diz Luiz Noronha, diretor executivo de TV da Conspiração Filmes. — O texto original tem um processo criativo diferente. Quando você adapta, o arco dramático já está pronto.

Outra iniciativa de peso veio da TV Globo. A emissora contratou a gerente de comunicação da editora Record, Gabriela Máximo, para ser gerente de aquisições de direitos literários. O cargo foi criado para centralizar a compra de direitos para adaptações — que antes ficava espalhada por outras áreas do canal. A última foi “Alexandre e outros heróis”, adaptação de Luiz Fernando Carvalho para dois contos de Graciliano Ramos.

— Antes, algum autor da casa, motivado por desejo ou alguma efeméride, pedia para os direitos de uma obra serem comprados. Mas, até agora, não tínhamos uma área para cuidar de direitos literários — diz Monica Albuquerque, diretora de desenvolvimento e acompanhamento artístico da TV Globo. — Como a quantidade de títulos disponíveis cresce, nós precisávamos de uma área para dar apoio aos criadores. É uma forma de ter mais agilidade.

A medida da TV Globo mostra um dos desafios a serem superados pelo mercado livreiro. Hoje, a iniciativa de adaptar uma obra parte, na maioria das vezes, dos profissionais do audiovisual, que costumam procurar diretamente os autores dos livros. É o caso da produtora Elisa Tolomelli, que teve o projeto de adaptação de “Berenice procura”, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, aprovado para receber recursos da Ancine em dezembro.

— Conheci o livro por uma amiga, achei que tinha uma estrutura dramática interessante e procurei o autor. Só depois de falar com ele entrei em contato com a editora. Em geral, é assim que funciona — afirma a produtora.

Luiz Noronha reafirma essa posição, mas diz perceber que já surgem agentes literários preparados para esse tipo de negociação. Além de Lucia Riff, ele cita Luciana Villas-Boas. No momento, a produtora trabalha numa adaptação de “A segunda vez que te conheci” (Objetiva), de Marcelo Rubens Paiva, para o Multishow.

A agente literária Marianna Teixeira Soares também costuma vender seus autores para TV e cinema. Ela vê o crescimento da demanda dos produtores, mas afirma que, hoje, esse tipo de projeto ainda é “incipiente”.

— Tive consultoria de advogados na hora de fazer os primeiros contratos — diz Marianna, que prefere não citar os termos dos compromissos, como remuneração do autor e vigência, porque as regras do mercado “ainda não estão completamente estabelecidas”.

 

Publicado originalmente por Maurício Meireles em O Globo

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